E sou leal a ela. Mas afinal, prá que ser leal?

Nesses dias pós-eleição me deparei com alguns acontecimentos que me deixaram triste e me fizeram refletir. Foi notável a troca de insultos que aconteceram nas redes sociais, principalmente no twitter entre os paulistas e moradores de outros estados. Palavras discriminatórias, rudes, xingamentos dos dois lados. Paulistas condenando as decisões dos nordestinos e esses (e de outros estados também) condenando os votos dos paulistas, expressivamente diferente do Brasil.

Isso me fez refletir. O meu sentimento ao ver isso foi primeiro de repulsa pelo tratamento feito entre pessoas de um mesmo país. Depois, eu me senti insultada por ser paulista e pelo amor que sinto por este estado e particularmente por esta cidade.

Eu não sou paulistana, nasci numa cidade chamada Poá, que fica a 70 km daqui, mas bem cedo vim morar nesta cidade. E sinto gratidão por este local que me acolheu, me recebeu ainda estudante, me possibilitou crescer profissionalmente, me trouxe amigos inestimáveis, me permitiu viver situações muito felizes. Como não ser grata a um local assim, que me encanta pela sua diversidade, pelas possibilidades, pela liberdade que oferece. É claro que tem problemas. Mas, não ficamos em um lugar apenas pelas coisas boas. Assim como não amamos uma pessoa apenas pelas suas qualidades.  Assim como não amamos uma pessoa apenas pelas suas qualidades.

Essa reflexão me fez trazer a tona conceitos como Fidelidade e Lealdade. Estes são preceitos éticos de reeducação comportamental que sustentamos no Yôga. E lealdade inquebrantável é uma das características do Yôga que pratico e leciono, o SwáSthya. Por isso, a reflexão neste tema é fundamental para mim.

É muito fácil sermos leais quando tudo vai bem. Somos leais a um amigo enquanto ele faz o que nos agrada? Somos leais a um político em quem acreditamos até que ele seja envolvido em um escândalo verdadeiro ou não? Somo leais a nossa cidade, mesmo que ela tenha problemas? Somo leais ao nosso país, mesmo quando ele perde a copa do mundo de forma lamentável e até vergonhosa? Ou retiramos todos, as bandeiras das janelas? E acusamos também o político? Desdenhamos da nossa cidade?

Lealdade é questão de princípio. Somos leais naquilo e em quem acreditamos. E devemos permanecer leais mesmo que existam determinados pontos que a princípio podem nos parecer que não nos são favoráveis. Como podemos ser leais a uma religião, por exemplo, se existem certas orientações e comportamentos que não acreditamos e preferimos dizer: “isto eles seguem, mas eu não sigo porque não concordo”. É aquele comportamento típico de adotar apenas o que é conveniente para si. Eu vou seguir a religião X até o ponto em que me for conveniente. Não vou me submeter a isso ou aquilo, não vou perder meu tempo num determinado dia para me dedicar a alguma atividade compromissadamente. Exemplos não faltam.

O fato é que essa volatilidade em que nos colocamos não assumindo definitivamente aquilo a que somos leal é muito prejudicial para o nosso desenvolvimento. Primeiro porque ficamos pulando de canoa em canoa (tudo bem se isso é porque ainda não encontramos aquilo que nos sustenta, mas e se essa mudança é motivada por insatisfações pontuais e discordância em pequenos pontos?). Amamos uma pessoa apenas pelas suas qualidades?

“Somos leais naquilo e em quem acreditamos.
E devemos permanecer leais mesmo que existam
determinados pontos que a princípio podem nos parecer
q
ue não nos são favoráveis.”

Hoje li uma frase interessante no linkedIn: “As pessoas deixam uma empresa por causa do chefe e não por causa da empresa.” É a mesma coisa, não existe lealdade à empresa, e particularmente neste caso, uma característica do ambiente em que você está, faz com que você o abandone por completo, ao invés de tentar contornar ou até mesmo mudá-lo. Estou sendo muito restrita aqui neste exemplo e sei que muitas outras variáveis podem interferir uma decisão como essa e não pretendo fechar a reflexão neste ponto como sendo verdade absoluta sempre. É apenas mais um exemplo possível.

O importante é perceber que quando não somos leais a aquilo em que acreditamos é como se perdêssemos consistência naquilo que somos. Não nos construímos. Não estamos sendo leais às nossas próprias convicções, não lutamos pelo que acreditamos e queremos. Deixamos de defender, colocamos de lado nossos princípios, nos deixamos levar por facilidades que o comodismo oferece, preferimos permanecer em nossa zona de conforto.

Levando isso para um aspecto muito prático, se não cultivamos esse sentimento, esse conceito em nossas vidas, como agiremos em momentos em que a lealdade é posta à prova? Como agiremos quando temos um projeto em que acreditamos e estamos tentando realizá-lo, se não exercitamos a lealdade a ele? Vamos desistir perante dificuldades ou opiniões contrárias ou vamos nos manter leais ao propósito inicial? Se nossa convicção não for forte o suficiente, as críticas alheias podem facilmente nos desestruturar e fazer com que percamos a nossa lealdade e motivação.

Exercite a lealdade. Em pequenas coisas. Depois em grandes coisas. Não ceda ao impulso de querer ajustes que vão proporcionar o seu maior conforto. Seja leal por princípio, não por conveniência.